Um tripé para saúde mental, também no trabalho.
Autocuidado é sinal de maturidade emocional e autogestão.
Somos uma geração que foi ensinada que o nosso valor está no quanto podemos produzir. Que a gente tem que dar conta e seguir forte, mesmo quando o corpo grita, mesmo quando a alma pede pausa.
À essa altura do campeonato, já sabemos que chega uma hora em que a gente começa a dar defeito. A saúde cobra, o corpo colapsa, a mente trava e o coração endurece. Com alguma sorte, esse é o momento que alguns conseguem entender que viver bem exige algo mais profundo do que apenas sobreviver, exige presença. Exige, inicialmente, nos reconhecer humanos e não máquinas.
Autocuidado é isso. É escolher estar presente em si.
Não é essa indústria “wellness” que está movimentando trilhões ao ano no mundo. Esse tipo de produto mascarado de autocuidado tem um potencial adoecedor enorme porque contribui para a roda da hiperperformance girar.
Autocuidado é um compromisso cotidiano com aquilo que nos nutre de verdade. É perceber quando algo dentro da gente começa a se agitar e saber acolher, antes de explodir ou adoecer. É a prática diária de escutar o corpo, o coração e a mente como uma rede viva e interligada.
Na prática:
- É perceber que você está há horas sem se levantar da cadeira e, mesmo com prazos apertados, se levantar por cinco minutos e respirar perto da janela.
- É respeitar seu horário de almoço, mesmo quando o grupo todo decide almoçar respondendo e-mails.
- É recusar um pedido fora do seu escopo quando já está com sobrecarga, sem se culpar por não “abraçar tudo”.
- É não se culpar por precisar de um tempo sozinho depois de uma manhã cheia de reuniões.
Autorregulação: o centro silencioso do nosso equilíbrio
A autorregulação é a capacidade de retornar ao nosso eixo interno quando somos tirados dele. Todos nós passamos por estresse, frustração, ansiedade, tristeza. Isso faz parte da vida. Mas quando temos recursos internos para reconhecer o que sentimos e nos reorganizar emocionalmente, conseguimos atravessar essas ondas com mais segurança.
Esse é um aprendizado corporal e relacional.
Porque o sistema nervoso não se regula só com pensamento positivo ou esforço racional. Ele precisa de segurança. Precisa de presença. Precisa de pequenos sinais de que está tudo bem agora. Às vezes, isso vem de um abraço, de uma respiração mais profunda, de um olhar que acolhe, de um ritual que nos ancora.
Quando crianças, aprendemos a nos regular a partir do outro: do colo, da voz calma, do cuidado. Se isso faltou, podemos reaprender. Não é tarde. O cérebro é plástico. O afeto é medicinal. E o corpo guarda caminhos de volta para casa.
Na prática:
- Você recebe um feedback atravessado do seu gestor e percebe o coração disparar. Ao invés de reagir, você sai da sala, toma um copo d’água, respira fundo e volta para conversar com mais clareza.
- Depois de uma reunião tensa, ao invés de entrar direto na próxima tarefa, você pausa por 3 minutos, ajusta a postura, respira e se dá tempo para digerir o que sentiu.
- Sabe que fica facilmente ansioso com cobranças urgentes? Cria o hábito de anotar tudo o que precisa fazer, para não depender só da memória emocional.
- Antes de uma apresentação importante, você silencia o celular, faz uma respiração profunda e se ancora no corpo, ao invés de deixar a ansiedade tomar conta.
E onde entram os hábitos nisso tudo?
Hábitos são trilhos emocionais e neurológicos. Eles criam a estrutura que sustenta o nosso bem-estar quando a vida aperta. Não são fórmulas mágicas, são escolhas pequenas, repetidas com intenção.
Criar um hábito de autocuidado é, na verdade, construir um vínculo consigo. É como dizer para si, todos os dias: “eu me importo contigo”. É dormir um pouco mais cedo. Beber água. Mexer o corpo com respeito. Se proteger de ambientes tóxicos. Ficar em silêncio por 10 minutos. Ter um momento de prazer só seu. Cuidar do que sente, mesmo quando ninguém está vendo.
Essas práticas vão, aos poucos, recalibrando o sistema nervoso, diminuindo a sobrecarga emocional e fortalecendo nossa capacidade de autorregulação. Não se trata de perfeição. Se trata de continuidade. De honestidade. De gentileza com os dias ruins e celebração dos dias bons.
Na prática:
- Colocar um lembrete diário para fazer uma pausa de respiração consciente no meio da tarde.
- Criar um ritual de começo e fim do expediente: um café, uma música, uma caminhada curta algo que sinalize ao seu corpo o início e o encerramento da jornada.
- Trazer para sua agenda uma reunião semanal com você mesmo, para revisar como está emocionalmente e ajustar o ritmo se necessário.
- Construir o hábito de buscar apoio: agendar terapia, conversar com alguém de confiança, nomear o que sente (antes de entrar em colapso).
No fundo, cuidar de si é um gesto de amor
Porque uma pessoa que se cuida de verdade e com profundidade, é aquela que entendeu que não é uma ilha. Pelo contrário, ela se transforma num farol. Ao se acolher, ela acolhe melhor o outro. Ao se escutar, ela ouve com mais empatia. Ao se regular, ela não despeja seu caos em quem está por perto.
Autocuidado, autorregulação e hábitos não são tarefas isoladas. São partes do mesmo movimento de cura. Uma cura que é individual, mas também coletiva. Uma construção lenta, mas profundamente transformadora. E você não precisa começar com grandes mudanças.
Comece com um gesto. Um passo. Um minuto de respiração consciente.
Comece de onde você está e com o que você já tem.
Artigo escrito por Bruna Côrtes – Psicóloga formada pela PUC do Rio e Diretora Técnica na Norte Saúde Mental. Com mais de 15 anos de experiência como Psicóloga Clínica, atuando em diversas frentes, incluindo a Santa Casa de Misericórdia, instituição referência em atendimento e promoção de saúde no Brasil, ela é especialista em Psicotrauma e Terapia Sistêmica. É também professora e supervisora de terapeutas, além de palestrante e facilitadora de vivências psicológicas coletivas.
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