Um tripé para saúde mental, também no trabalho.

Autocuidado é sinal de maturidade emocional e autogestão.

Somos uma geração que foi ensinada que o nosso valor está no quanto podemos produzir. Que a gente tem que dar conta e seguir forte, mesmo quando o corpo grita, mesmo quando a alma pede pausa.

À essa altura do campeonato, já sabemos que chega uma hora em que a gente começa a dar defeito. A saúde cobra, o corpo colapsa, a mente trava e o coração endurece. Com alguma sorte, esse é o momento que alguns conseguem entender que viver bem exige algo mais profundo do que apenas sobreviver, exige presença. Exige, inicialmente, nos reconhecer humanos e não máquinas.

Autocuidado é isso. É escolher estar presente em si.

Não é essa indústria “wellness” que está movimentando trilhões ao ano no mundo. Esse tipo de produto mascarado de autocuidado tem um potencial adoecedor enorme porque contribui para a roda da hiperperformance girar.

Autocuidado é um compromisso cotidiano com aquilo que nos nutre de verdade. É perceber quando algo dentro da gente começa a se agitar e saber acolher, antes de explodir ou adoecer. É a prática diária de escutar o corpo, o coração e a mente como uma rede viva e interligada.

Na prática:

Autorregulação: o centro silencioso do nosso equilíbrio

A autorregulação é a capacidade de retornar ao nosso eixo interno quando somos tirados dele. Todos nós passamos por estresse, frustração, ansiedade, tristeza. Isso faz parte da vida. Mas quando temos recursos internos para reconhecer o que sentimos e nos reorganizar emocionalmente, conseguimos atravessar essas ondas com mais segurança.

Esse é um aprendizado corporal e relacional.

Porque o sistema nervoso não se regula só com pensamento positivo ou esforço racional. Ele precisa de segurança. Precisa de presença. Precisa de pequenos sinais de que está tudo bem agora. Às vezes, isso vem de um abraço, de uma respiração mais profunda, de um olhar que acolhe, de um ritual que nos ancora.

Quando crianças, aprendemos a nos regular a partir do outro: do colo, da voz calma, do cuidado. Se isso faltou, podemos reaprender. Não é tarde. O cérebro é plástico. O afeto é medicinal. E o corpo guarda caminhos de volta para casa.

Na prática:

E onde entram os hábitos nisso tudo?

Hábitos são trilhos emocionais e neurológicos. Eles criam a estrutura que sustenta o nosso bem-estar quando a vida aperta. Não são fórmulas mágicas, são escolhas pequenas, repetidas com intenção.

Criar um hábito de autocuidado é, na verdade, construir um vínculo consigo. É como dizer para si, todos os dias: “eu me importo contigo”. É dormir um pouco mais cedo. Beber água. Mexer o corpo com respeito. Se proteger de ambientes tóxicos. Ficar em silêncio por 10 minutos. Ter um momento de prazer só seu. Cuidar do que sente, mesmo quando ninguém está vendo.

Essas práticas vão, aos poucos, recalibrando o sistema nervoso, diminuindo a sobrecarga emocional e fortalecendo nossa capacidade de autorregulação. Não se trata de perfeição. Se trata de continuidade. De honestidade. De gentileza com os dias ruins e celebração dos dias bons.

Na prática:

No fundo, cuidar de si é um gesto de amor

Porque uma pessoa que se cuida de verdade e com profundidade, é aquela que entendeu que não é uma ilha. Pelo contrário, ela se transforma num farol. Ao se acolher, ela acolhe melhor o outro. Ao se escutar, ela ouve com mais empatia. Ao se regular, ela não despeja seu caos em quem está por perto.

Autocuidado, autorregulação e hábitos não são tarefas isoladas. São partes do mesmo movimento de cura. Uma cura que é individual, mas também coletiva. Uma construção lenta, mas profundamente transformadora. E você não precisa começar com grandes mudanças.
Comece com um gesto. Um passo. Um minuto de respiração consciente.
Comece de onde você está e com o que você já tem.

Artigo escrito por Bruna Côrtes – Psicóloga formada pela PUC do Rio e Diretora Técnica na Norte Saúde Mental. Com mais de 15 anos de experiência como Psicóloga Clínica, atuando em diversas frentes, incluindo a Santa Casa de Misericórdia, instituição referência em atendimento e promoção de saúde no Brasil, ela é especialista em Psicotrauma e Terapia Sistêmica. É também professora e supervisora de terapeutas, além de palestrante e facilitadora de vivências psicológicas coletivas.

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